A BANALIDADE DO MAL

full.jpegOntem passei um bom tempo do meu dia debatendo qual atitude tomar em relação ao apoiadores de Bolsonaro. O argumento usado era que no meu texto original eu colocava todos os apoiadores do Bozo “no mesmo saco”. Afinal, há pessoas “de bem” votando em Bolsonaro e seria preciso fazer um esforço para dialogar com elas.
 
Concordei, sou pelo diálogo, temos de fazer de tudo para virar essa eleição. Mas, ainda que eu entenda a necessidade de dialogar com os eleitores de Bolsonaro de maneira a discernir entre os vários grupos que o apoiam, apontei uma única incongruência: O sujeito que está no centro do debate, ou seja, o candidato ele mesmo, não busca o consenso e não faz a mínima questão de ser tolerante com quem pensa diferente dele.
 
Ao contrário, anunciou publicamente que uma vez que tenha ganho as eleições, fará de tudo para perseguir aqueles que lhe fazem oposição. Ameaçou mesmo essas pessoas com violência e exílio. O candidato usa essa virulência como uma marca registrada, e essa “marca” é o que atrai boa parte dos seus seguidores (talvez não todos, mas muitos).
 
Não tenho a menor dúvida de que há muita gente de bem que vai votar nele. Pais de família, mães, avós, namoradas e namorados. Como dizia o outro: todo mundo é filho de alguém e já foi criança.
 
A essas pessoas eu recomendaria vivamente ler um livro que explica bem como a relativização do mal, a ausência de empatia e a inação podem ter consequências nefastas. Recomendaria o tal livro, mas não acho que a maioria dos eleitores de Bolsonaro sejam realmente afeitos à leitura. De novo, uma generalização, mas nesse caso acho que vale a pena, pois em 20 anos como professor, sempre tive a certeza de que aquelas pessoas que pouco liam eram justamente aquelas com mais dificuldades para pensar criticamente. O pensamento dos bolsominions é confuso, fragmentado, não conecta causa e consequência, ou vê causas onde elas não existem (e.g. imposição do comunismo no Brasil).
 
E quem tem tempo de ler livros hoje em dia, não é mesmo? Toda a informação de que precisamos está nos grupos de WhatsApp da família (estes sim, com valores!), nos vídeos do Olavo de Carvalho no YouTube e, com sorte, no UOL.
 
Mas se eu pudesse dizer a estas pessoas: leia, e liberte-se, recomendaria o livro “Eichmann em Jerusalém – Um relato sobre a banalidade do mal”, de Hannah Arendt, publicado em 1963. O livro é curto e muito bem escrito, mas é claro que o sujeito precisa pensar um pouco para entender do que ela está dizendo.
 
No livro, Hannah Arendt relata o julgamento de Adolf Eichmann, o responsável pela logística de transporte dos internados em campos de concentração na Alemanha nazista, ou seja, como alguém lhe chamou, um “funcionário de ferrovia”. Eichmann foi sequestrado em Buenos Aires, para onde havia fugido depois da guerra, e levado a Jerusalém, onde foi julgado. Durante o processo, todos esperavam ver ali um monstro sanguinário, responsável pela logística de transporte e logo, também responsável pela morte de milhões de pessoas durante o regime nazista, a maioria delas judeus.
 
Ao contrário, o que Arendt vê ali é um “funcionário”, um homem comum, um burocrata. Ela se diz surpresa em ver como ele era medíocre.
 
Eichmann e seus advogados baseiam toda a sua defesa no fato de que ele estaria apenas cumprindo ordens. Durante o julgamento, buscaram a todo custo “apagar” a pessoa de Eichmann. Era como se ele não tivesse agência ou vontade e, portanto, não tivesse consciência. Apenas cumpria ordens, e portanto não poderia ser responsabilizado pelas consequências de seus atos. Durante sua atuação como funcionário do 3º Reich, ele não quebrou nenhuma lei, era um cidadão exemplar, era um bom cristão.
 
O que Arendt argumenta durante o livro, em palavras simples, é que ninguém pode ser separado das consequências dos seus atos, mesmo que estes atos sejam “inação”, ou mesmo que estes atos aconteçam dentro da lei, como no caso de Eichmann.
 
Por favor, note que não estamos falando de consequências IMPREVISÍVEIS. Ninguém pode prever exatamente as consequências de todos os seus atos. Mas veja, Eichmann SABIA muito bem das consequências do que ele estava fazendo. Ele sabia muito bem que estava mandando milhões de pessoas para a morte.
 
Assim como Eichmann, nenhum, *nenhum* eleitor de Bolsonaro poderá alegar que “não sabia” o que aconteceria se ele fosse eleito. As palavras do candidato e os atos e fatos de seus seguidores são muito claros: eles querem ELIMINAR a oposição (não calar, eliminar), querem calar todo tipo de ativismo, querem bater em gays (senão matá-los), querem tirar todas a proteções ambientais que protegem nossa biosfera, fechar o congresso, etc etc etc. Não há fim para a lista de atrocidades que saem da própria boca do candidato (não são, claramente, fake news) .
 
Os eleitores de Bolsonaro não poderão alegar nunca que estão votando nele somente porque não querem o PT no poder (mas veja-se a excelente crônica de Antônio Prata, “Transtorno obsessivo compulsivo”: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/antonioprata/ ).
 
Ou seja, pessoas de bem, agindo dentro da lei, contra a corrupção, não poderão ser isentadas da responsabilidade de ter elegido um fascista, pois estão bem conscientes do que ele prometeu fazer. O candidato foi claríssimo. Não há dúvida sobre a natureza do seu governo. Ou será que de verdade teremos de lidar com gente dizendo “Ah, mas eu não acreditava que ele faria tudo isso!”. Como assim? Então, como apontou minha grande amiga Claudia, os eleitores de Bolsonaro são os únicos que vão votar nele PORQUE NÃO ACREDITAM NO QUE ELE DIZ?
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